April 21, 2010

Para refletir!!

Quero casar com o papai
por SARAH MAIA, FILHA DE IESMIM E SAULO

Toda criança passa pela fase do Complexo de Édipo, faz parte do despertar da sexualidade e é perfeitamente normal, pode ficar tranqüilo. O importante é ajudá-la a entender que a namorada do papai é a mamãe

“Quem é o seu namoradinho?” Não se assuste se sua filha de 3 e poucos anos responder sem pensar duas vezes: “é o papai!” Essa resposta, óbvia para ela e talvez um pouco desconcertante para você, aparece mesmo nessa fase, que os psicanalistas chamam de edipiana e que vai mais ou menos até os 6 anos. É, sua garotinha está crescendo. Para se tornar uma moça lá na frente, ela precisa, sim, continuar se identificando com a mãe, mas também interessar-se pelo sexo oposto, representado pelo pai. Certo, Édipo foi o tal que, sem saber, matou o pai e casou-se com a própria mãe, desrespeitando a regra básica da sociedade: não manter relações sexuais com o próprio pai ou mãe. Mas o Complexo de Édipo vale tanto para os meninos quanto para as meninas, com algumas particularidades, claro.

O que há em comum: depois de nove meses de gestação, seu filho sai da barriga para o mundo. Mas, nos primeiros anos, ainda permanece muito ligado à mãe, seu primeiro objeto de amor. É só mesmo lá para os 3 anos que, simbolicamente, o cordão umbilical é cortado. Para que possa crescer e se tornar autônomo, o pequeno precisa renunciar a essa fusão total. O criador da psicanálise, o austríaco Sigmund Freud (1856 – 1939), retomou o mito grego para definir a tendência compartilhada por todas as crianças: o desejo (inconsciente, que fique claro) pela mãe ou pai (o do sexo oposto) e a eliminação daquele que é do mesmo sexo, considerado rival. Claro que não acontece assim, ao pé da letra. O mito entra aí para escancarar as coisas e permitir que a gente entenda mais facilmente todos esses sentimentos complicados.

”O Complexo de Édipo é uma fantasia desenhada pela criança para integrar uma série de problemas que ela mesma se coloca: o que fez o pai desejar a mãe? Como são feitos os bebês? Qual é a diferença entre homens e mulheres e como faço para me colocar em um destes dois lados? O que é a sexualidade e qual a relação com o amor e com o desejo? Essa fantasia é feita para não ser realizada e seu valor depende exatamente disso”, explica o psicanalista Christian Ingo Dunker, pai de Nathalia e Mathias.

Voltando ao caso da menininha do começo. Ela está manifestando que se identifica com a mãe e quer tomar o seu lugar, chegando a fantasiar que pode ter um filhinho com o pai. Do mesmo modo, o garoto identifica-se com o pai e deseja ser como ele e ter a própria mãe como “namorada”. A criança fica dividida entre a rivalidade e afeição por um, e desejo e rejeição pelo outro. Todos esses novos desejos trazem sofrimento e angústia.

A preferência por um dos pais gera culpa em relação ao outro. Seu filho percebe que seus desejos e pensamentos são perigosos e proibidos. Não é à toa que nessa época algumas crianças começam a ter dificuldade para dormir, ficam irritadas e agressivas. Querer se livrar da mãe e namorar o pai é um segredo difícil de guardar...

Começa um verdadeiro triângulo amoroso. “A relação é complicada porque a criança ama os pais e ainda precisa dar conta da triangulação de sentimentos para não romper com a outra parte”, afirma a psicanalista infantil Sílvia Lobo, mãe de Adriana, Suzana e Maurício. Para Sílvia, esse é um dos grandes conflitos que os filhos precisam digerir.

Tranqüilidade

É bacana saber de tudo isso para encarar respostas como a do começo dessa reportagem sem reações descabidas, tipo ficar chocado ou achar que há algum problema com a filha (ou filho). A resposta deve ser dada de forma tranqüila: “Filha, o papai já tem namorada: é a mamãe”. E pronto. Lógico que o desejo não vai ser concretizado e é isso que precisa ficar claro. Beijar o filho na boca, deixá-lo dormir na cama do casal, tomar banho junto com o pai do sexo oposto sem roupa são atitudes a ser evitadas. Não é caretice, nada disso. Trata-se de demarcar esses limites de maneira bem clara.

Relação de pai e filho é uma coisa, de marido e mulher, outra bastante diferente e, sobre a qual a criança não tem de saber muita coisa. É a hora de fechar a porta e dizer: “Agora a mamãe vai ficar com o papai”. É difícil para você desgrudar do seu filhinho querido? Recorra ao pai. Figura de autoridade por excelência, é ele que pode estabelecer o limite entre o desejo do filho e a relutância da mãe em não ceder à manha, já que ela é seu principal objeto de amor desde o nascimento do menino ou menina.

Essa dificuldade é vivida por Ana Paula Minorelli, que precisa se desdobrar para dar conta dos três homens que tem em casa. Cada noite um dorme na sua cama, assim ela evita brigas e confusão entre os irmãos Luigi, 6 anos e Vitor, 4. “Luigi já está mais apegado ao pai, quer ser como ele quando crescer e não fica mais tão grudado em mim. Já o Vitor, não me larga de jeito nenhum. Abraça, fica agarrado no meu pescoço e beija de sufocar”, conta a mãe. O menor fica bravo quando não dorme com ela e disputa sua atenção com os outros homens da casa, inclusive com o pai.

Citado pela primeira vez em 1910 por Freud, o conceito de Édipo só foi designado como complexo pelo psiquiatra suíço C. J. Jung (1875 – 1961). Freud se baseou na mitologia grega e na peça de Sófocles (496 – 406 a.C), Édipo-Rei, para conceituar a relação sensual que o filho sente pela mãe e, conseqüentemente, a repulsa pelo pai. Mesmo que seu filho ou filha não manifestem tão explicitamente o desejo por você a ponto de dizer que são namorados, pode ter certeza de que todos aqueles sentimentos ambíguos estão lá. As descobertas e sentimentos dos meninos são diferentes dos das meninas, assim como o desenvolvimento de cada fase do complexo.

Falamos com o psicanalista argentino J. – D. Nasio, pai de Flavia, Gaïa, Ivan e Daphné, autor do livro Édipo, o Complexo do Qual Nenhuma Criança Escapa, para entender como funciona esse rolo todo. O menino quer possuir a mãe, se sente poderoso com seu corpo dotado de um falo (palavra que, mais do que pênis, designa poder) e faz de tudo para tirar o pai de cena e ser finalmente o homem da casa. Porém, enquanto fica cheio de orgulho com a mãe ao lado, sente uma angústia forte de um dia perder seu poder de homem. Aos poucos, se afasta da visão sensual da mãe e se aproxima do pai, figura que passa a admirar.

Pai ou mãe solteiros

O complexo se dá mesmo que não haja um pai do sexo oposto em casa. Guilherme Sampaio, 7 anos, é um exemplo. Ele mora com a mãe, a avó e o tio. Guilherme só chama a mãe pelo nome, Isis, e não dorme fora da cama dela. Vive fazendo perguntas sobre as diferenças do corpo do homem e da mulher. Quando toma banho com a mãe, pergunta por que ele tem pipi e ela não, por que ela tem pêlos e ele não... O pai de Guilherme não mora com ele e o tio é visto pelo menino como um irmão. É no avô que ele tem a figura paterna de identificação. É a ele que o garoto respeita, mesmo morando em casas separadas. Segundo o psicanalista Nasio, o importante não é que a mãe tenha um companheiro, mas que deseje alguém. “No caso de não ter parceiro, o que conta é que ela seja interessada por outra coisa senão o filho, que o amor pelo filho não seja o único amor de sua vida. Há Édipo a partir do momento em que a mãe deseja um terceiro entre ela e o pai. O pai é o terceiro que a mãe deseja.”

O menino sai do Édipo em um dia, a menina precisa de anos. Nasio usa a frase para explicar como a relação do Complexo de Édipo feminino é mais complicada que a masculina. Como o menino, as filhas adotam a figura materna como primeiro objeto de investimento sensual. As meninas se vêem como meninos, com os mesmos atributos deles. Essa é a fase, chamada por Freud de pré-edipiana, quando a criança ainda não viu no pai seu foco de desejo. Ao descobrir que ela é exatamente como a mãe, a menina passa por um processo de perda, como se aquele poder que acreditava ter não existisse mais. Essa sensação de frustração faz com que a filha se afaste da mãe e se aproxime do pai, chegando à fase do Édipo em si. “A mulher precisa se sentir protegida pelo outro”, explica Nasio. Por isso, as filhas têm inveja da mãe, que podem dormir com seu homem e tê-lo como companheiro. Querem usar roupas de mulher, passar batom e mostrar-se pela casa como mocinha e não como criança.

A transição de fantasias inconscientes pelo pai até a identificação sexual feminina é lenta. A descoberta de ser mulher aproxima a filha de novo da mãe. Agora não mais como objeto sensual e, sim, como um ser igual a ela. Todo esse processo é fundamental para a descoberta de suas emoções e para construção de um ser humano que saiba lidar com seus desejos e medos. E para o desenvolvimento da consciência moral. É aí que a postura dos pais pode interferir na construção da identidade sexual. A maneira como as reações das crianças é vista pode se estender para a vida adulta de forma favorável ou destrutiva. Édipo mal trabalhado pode levar a adultos incapazes de lidar com seus sentimentos, além de acarretar uma possível relação conflituosa com os pais. O negócio é entender que as crianças têm sua própria sexualidade, aceitar que questionam o amor que sentem por nós e que não podemos atender a todos os seus desejos. Como resume Nasio, ainda se recorre à lenda de Édipo porque não há outra que explique tão bem o sentido das provas vitais que nós, adultos, atravessamos. A primeira é aceitar que, diante de uma escolha difícil, nunca perderemos tudo e, se ganharmos, nunca ganharemos sem perda. Assim como não se pode namorar o papai, não se pode ter tudo na vida.

CONHEÇA O MITO DE ÉDIPO
Édipo é um dos muitos personagens da mitologia grega. Seu pai era Laio, rei de Tebas, que ameaçado por opositores é obrigado a mandar matar seu filho recémnascido. A ordem é dada a um pastor que, tomado pela compaixão, não consegue assassinar a criança. É, então, adotado por camponeses. Em uma das muitas peças pregadas pelos deuses, o menino, agora adulto e forte, reencontra Laio e, durante uma discussão, mata o homem, sem saber que era na verdade seu pai. Tempos depois, a cidade de Tebas se vê ameaçada pela Esfinge. Édipo, com toda sua inteligência, decifra o grande enigma do monstro, que se mata: qual o animal que anda sobre quatro patas de manhã, sobre duas à tarde e três ao anoitecer? A resposta clássica: é o homem, que engatinha quando bebê, anda mais tarde e se apóia numa bengala na velhice. Como agradecimento, o povo da cidade faz de Édipo seu rei, e lhe entrega como presente a mão da rainha Jocasta. Sem saber, Édipo casa com a própria mãe. Como castigo pelos crimes do rei, uma grande peste invade Tebas e o oráculo revela a Édipo sua verdadeira origem. Jocasta se suicida, e o filho, enlouquecido, fura os olhos e foge da cidade.

AS ETAPAS DO COMPLEXO
Ao nascer, o bebê inicia sua fase oral, quando seu prazer está ligado à boca e ao ato de sugar o leite materno.

Com o fim da fase oral, a criança começa sua fase anal, quando aprende a eliminar e reter as fezes e a urina.

A partir dos 2 anos, a criança passa pela fase chamada pré-edipiana, quando começa a perceber as diferenças entre os sexos.

Aos 3 anos (em média), desenvolvem sentimentos de prazer e desejo em relação às figuras maternas e paternas, começando assim a fase edipiana.

A atração pelo pai ou pela mãe e a consciência de que seus desejos nunca são realizados levam o filho a sentimentos de angústia, perda e medo.

A culpa por suas fantasias faz com que os filhos se distanciem de seus objetos de desejo e passem por um processo de dessexualização dos pais.

O fim da fase edipiana chega com a percepção das primeiras noções de pudor, limites e moral.

Os filhos, agora um pouco maiores, em torno dos 6, 7 anos, passam a enxergar seus pais como objeto de identificação (chamado de super eu) e aos poucos criam sua própria identidade sexual, que se estende até a adolescência.

COMO AGIR?
Demarcando os limites, você dá segurança a seu filho

Aceite o afeto, mas imponha limites, não deixando que o beije na boca, por exemplo.

Respeite o corpo do seu filho. Perceba quando ele não quiser abraços e beijos e entenda caso ele fique envergonhado.

Pai e filha e mãe e filho não devem tomar banho juntos sem roupa. Essa é uma das atividades que devem se restringir ao casal. Vista maiô.

A criança deve dormir em sua própria cama. Só quem dorme com a mãe é o pai.

Não ceda à manha. Explique que continua gostando muito dela, mas que naquela hora precisa conversar com a mãe (ou pai).

Haverá momentos em que seu filho vai querer ficar mais com a mãe ou o pai. Evite dizer coisas do tipo: “Eu também não gosto de você”. Com isso, a criança fica com medo de que você não a ame mais.

CONSULTORIA
Bianca Molica Ganuza, psicóloga. Tel. (12) 3922-2846
Christian Ingo Dunker, psicanalista e professor-doutor do Instituto de Psicologia da USP Tel. (11) 3887-0781 chrisdunker@uol.com.br
J. – D. Nasio, psiquiatra e psicanalista. www.nasio.fr; nasio@free.fr Sílvia Lobo, psicanalista infantil Tel. (11) 3064-1694

A Pais e Filhos assistiu ao curso O Nascimento do Sujeito, baseado na série A Mente do Bebê números 1, 2, 3 e 4, especial da Revista Mente e Cérebro, na Casa do Saber, em São Paulo, a convite da Duetto Editorial.

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